Saturday, June 23, 2007

Trajectos (*)

Chegou a nova colecção do Cacimbo e é bem verdade, que eu vi. É altura dos jactitos viajarem até às lojas de moda para fazer face a tamanha tragédia e dos mais modestos se aquecerem juntinhos nos contentores. Lá para Agosto, as coisas pioram e o melhor é prevenir. De manhã, é ver os olhos dos pequenitos,olhos de sono, olhos de esperança que não é a deles ,é a nossa... as mãos magras que tocam ritmos ainda descompassados nas latas da noite mal dormida, porque a t-shirt tinha um buraco por onde entrava o frio, mas é boa a T-shirt! Diz Boss, e diz que o boss é aquele que manda nisto tudo e que um dia nos vai matar a fome. É ver o sorriso das mamãs, com panos fingidos de alegria na sorte de vender bananas...E outros que não pararam de beber toda noite,como eu, e que exibem os seus olhos negros delineados com um risco vermelho, numa maquiagem perfeita para começar o dia na pedincha de um cigarro. África, Europa, América ... acordam todos a cantar mais alegria porque é essa a colecção do cacimbo e há muitas colecções em todo o mundo. André, amanhã, se encontrares 4 rodinhas, daquelas dos carros que dão de brinde com um jornal na Europa, cola-as nos pés calejados do Tó que um dia me pediu uns patins, quando eu lhe quis dar uns sapatos. Porque é tempo do cacimbo e ele vai saber que eu nunca o esqueci na sua colecção e sempre soube que uns sapatos são uma chatice porque não têm rodinhas. Manda-lhe também um beijo meu.Um que suavize as minhas saudades e que esconda a minha vontade de me esquecer dele no tempo do cacimbo.
(*) Comentario anonimo a este post.

9 Comments:

Anonymous Anonymous said...

Amostra sem valor

Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:
com ele se entretém
e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.

Eu sei que as dimensões impiedosos da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.

António Gedeão

Que tal vamos ao shoping center de Maputo comprar aconchegos bem quentinhos...
O univeso sou eu? Sou eu o Universo? O univeso sao os shoping center onde os agasalhos nascem como cogumelos e, acabam apodrecendo, pois nos shopings ha mais camisolas, que corpos friorentos para serem aquecidos...

"Eu sei que as dimensões impiedosos da Vida
ignoram todo o homem..."

tenho frio.

6:00 PM  
Anonymous Patricia Lopes said...

Ah, deixa-me chorar...
Obrigada por postar este texto maravilhoso.

10:55 AM  
Anonymous Anonymous said...

Que lindo, esse poema!
E os comentários! Mas de nada adiantaria comprar todas as camisolas do shoping center de Maputo, explodir todos os shopings apodrecidos do mundo,... porque continuaremos a sentir o gelo enquanto dizes que tens frio. Que tal uma luta contra o arrefecimento global do meu/teu/nosso universo? Não! Corremos sempre o mesmo risco: paleio e o passeio, paleio e o passeio, paleio, paleio e mais paleio.Até um dia "não muito distante", esperando tão somente um sinal de que o calor voltou.
Abraços

10:32 PM  
Blogger Nkhululeko said...

;).

9:19 AM  
Anonymous Anonymous said...

Poema das Árvores

As árvores crescem sós. E a sós florescem.

Começam por ser nada. Pouco a pouco
se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.

Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,
e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.

Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,
e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,
e os frutos dão sementes,
e as sementes preparam novas árvores.

E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.
Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.
Sós.
De dia e de noite.
Sempre sós.

Os animais são outra coisa.
Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,
fazem amor e ódio, e vão à vida
como se nada fosse.

As árvores não.
Solitárias, as árvores,
exauram terra e sol silenciosamente.
Não pensam, não suspiram, não se queixam.

Estendem os braços como se implorassem;
com o vento soltam ais como se suspirassem;
e gemem, mas a queixa não é sua.

Sós, sempre sós.
Nas planícies, nos montes, nas florestas,
a crescer e a florir sem consciência.

Virtude vegetal viver a sós
e entretanto dar flores.

António Gedeão



Ao frio e ao calor as arvores resistem...sem risco, com risco,
imoveis,afagadas pelo vento, afagando o vento, resistem...
Ao paleio e ao passeio as arvores resistem...
imoveis, impunentes, majestosas, no passeio,
sebes contra o paleio, arrefecimento global...aquecimento global...
frio no calor calor calor no frio, o ideal, amenizar, frio e calor, que tal uma temperatura amena do teu / meu /nosso universo? Nao digo que tens frio, nao digo que tens calor, digo que corres o risco de perder o passeio...

10:58 AM  
Anonymous Anonymous said...

"Os animais são outra coisa". Se não passeiam hoje, amanhã, ou depois.... até à morte. Mas sorte daqueles que não têm que levar com o paleio. Um abraço agradecido pelo poema. Foi só uma tentativa humorada de provocação a ver se enchemos o blog do nkhululeko de paleios poeticos. Pelo pouco que o conheço, até agora, deve estar a achar imensa graça. Vamos ver até quando...
Nunca gostei do que é ameno mas continuo a acreditar no meu/teu/nosso Universo. Por isso, aqui vai o neu contributo:

Passagem de emile henri

Era no tempo da palavra papel
da pluma bem comida lançando ideias de justiça aos chineses
da espingarda de ar podre ao ombro de cada um
Depois de ver com os seus próprios olhos como é que o ratazana toma o seu chazinho
Emile Henri
escritor da literatura dinamite
lança a segunda bomba à porta do Café Terminus
dado que: da má distribuição da riqueza e das coisas boas da Terra
TODOS SEM EXEPÇÃO TÊM A MÁXIMA CULPA
Cesariny

10:07 PM  
Anonymous Anonymous said...

Gostei da tua pluma humorada. Espero a pluma incisiva, precisa e silenciosa de André.
Pactuo com a tua “tentativa humorada de provocação”. Sou uma provocadora nata. Mas, suponho dificil enchermos o blog do nkhululeko de paleios poeticos. Pois esta cheio de poeticos silencios, orlados de mudos surssuros, embalados na brisa de suspiros, suspiros de letras, suspiros de letrinhas, alinhadas, uma a uma, as quais junta mais uma e uma mais... tantas quantas a força do silencio pode catapulta-las para o infinito do barulho, barulho mudo, barulho calado, silencio falado, ensurdecedor marulhar das ondas do indico... ondas esbatidas no in...
desfalecidas no infimo, recordadas no infinito...
la, onde a espuma desencontra a areia,
la, onde a areia encontra o céu, e o céu observa a areia e as pegadas pegadas na areia, sonhos deléveis,
sonhos indeléveis...
la, onde pegadas e enlaçadas palavras pintam coisas ...

Pedra Filososal
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
António Gedeão

Por isto, passeiemos com paleio no espaço de devaneio, fantasia, quimera, do André.
Para qdo o cartao vermelho?
Devassa. Havera inquiriçao? Procurar-se-ao testemunhos? Elaborar-se-à um processo criminal? Um silencio devassado? Devassado anonimo? Meio anonimo, silencio, um anonimo ... crime?!! Devassa o crime, devaneia o silencio, age a palavra...
Petulancia, petala de manicordio, estame de criaçao...

“Ha coisas da seriedade da vida que podemos aprender com charlataes e bandidos, ha filosofias que nos ministram os estupidos, ha liçoes e firmeza e de leis que vêm no acaso e nao sao do acaso. Tudo esta em tudo e o meu passeio calado é uma conversa continua, pois todos nos, homens, casas, pedras e céu, somos uma grande multidao amiga, acotovelando-se de palavras na grande procissao do Destino”
Agostinho da Silva

‘Bora daí, num passeio ameno no nosso Universo, teu e meu, dele...
deixas André?
Umhhh... esperemos pelo mar de palavras...


Além da terra, além do céu
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastros dos astros,
na magnólia das nebulosas.
Além, muito além do sistema solar
até onde alcançam o pensamento e o coração,
vamos!
vamos conjugar
o verbo fudamental essencial
o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempreamar
o verbo pluriamar,
razão de ser e viver
Carlos Drummond de Andrade

8:05 AM  
Anonymous Anonymous said...

As coisas que desconhecemos na alma dos outros! Não sabia do André assim. Quanto à companhia no passeio e no paleio, vou ter que resistir. Gostei da nossa troca. E acho que o André ainda não se "passou". Aliás, imaginava-o apenas a mandar umas sonoras gargalhada com estes desafios poéticos e a pensar" estes gajos também...caraças!têm que escrever sobre tudo,né? hehehehe".Como despedida e em homenagem a esse rapaz injustamente imaginado, aqui vai uma voz de Moçambique:

Presença

Sou dos que ainda estão presentes
e bebem do amor a única ausência.

Quantos pedaços de mentiras
retenho na viscosidade do meu cuspo?

Quantas verdades apaixonadas
reclamam ansiosas o esperma das palavras?

Nenhumas, talvez, nenhumas...
escravizo o silêncio
e faço dele o meu mensageiro.

Estou presente em tudo ou mais
e aí onde me procurarem
será a minha próxima ausência

Hélder Muteia

2:18 AM  
Anonymous Anonymous said...

As coisas que imaginamos ... espelham-se na alma do outros!!!
Os outros imaginamos, alma, espelho, nada, tudo,nada ... imaginamos
Existimos (?)

Faz-me o favor...

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor -- muito melhor!--
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

Mário Cesariny

7:16 AM  

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